VIVER COM ANSIEDADE

novembro 12, 2018


Oi, tudo bem? Espero que sim. Essa é uma carta de mim mesma para a minha pessoa ansiosa. A ansiedade vive dentro de mim há muitos e muitos anos, mas apenas recentemente que notei o quanto ela tinha espaço e também o quanto ela muitas vezes torna minha vida difícil.

Há pouco mais de um ano eu tive alguns problemas que uma breja no bar com meus amigos não amenizava mais. Briguei muito feio com uma pessoa. Terminei um relacionamento muito muito ruim no qual me sentia aprisionada desde 2012. E simplesmente depois de tudo aquilo passar eu continuava triste. Decidi procurar terapia. E foi no sofá da Lidiane que percebi essa minha amiga, a ansiedade. 

Neste minuto estou trabalhando em casa. Fui demitida do emprego formal onde era imensamente infeliz em fevereiro. Estou bem no trabalho atual - minha empresa de comunicação. Este trabalho me permite trabalhar onde eu quiser e a hora que eu quiser. Hoje decidi trabalhar de casa e não ir pro meu escritório, e estou aqui na mesa de jantar. Minha perna dobrada, a direita sobre a esquerda, está balançando porque eu estou freneticamente sacudindo meu tornozelo.

Eu faço isso no banco, às vezes antes de dormir. Às vezes estralo os dedos várias vezes seguidas, e parece que tem agulhas fininhas furando toda a pele das mãos. Tem um balão dentro da minha garganta, e por mais que eu respire, ele não esvazia. Minha cabeça pensa aceleradamente em tantas coisas que eu tenho pra fazer, mas eu sou só uma e só consigo fazer uma por vez - explique isso pra ela, minha ansiedade. Spoiler: ela não entende. 

O Brasil, segundo a OMS, tem 9,3% da sua população comprovadamente sofrendo de transtorno de ansiedade. 

A ansiedade quando te puxa pelas mãos te leva a decisões precipitadas. Te guia por caminhos dolorosos onde você com frequência passa mal, tem crises de que tudo vai acabar e dar errado. Às vezes, uma decisão simples do seu cotidiano te causa muita dor. É difícil ter plenitude.

E nessa toada, você muitas vezes começa a duvidar da sua capacidade intelectual e criativa. E vai deixando de fazer as coisas que você realmente quer.

Pode parecer alguma coisa meio idiota (e é também minha ansiedade falando), mas eu sempre me julguei um lixo em trabalhos manuais. Quando eu era criança eu com frequência largava de mão de fazer várias coisas manuais, trabalhos de escola, desenhos. Bradava "não tenho talento/paciência". Era em partes meu eu ansioso dizendo que eu não tinha paciência ou que não ia começar a tarefa que me propunha a terminar. Ou, também, a boa e velha cobrança de perfeição. 

Em contraponto, a leitura me prendia de tal forma que alimentava meu foco e minha personalidade distraída. E isso, de distração, também é algo que a ansiedade traz. Se eu passava umas 4 horas agarrada nos meus livros lendo vorazmente a infância toda, a ponto de ignorar tudo e todos ao redor, é porque eu sentia uma urgência de chegar até o final da coisa.

Muitas vezes eu disse que não começo novas séries com muitas temporadas porque sei que vou parar de comer e dormir de tão ansiosa que ficarei vendo todos os episódios. E é muito real isso. E confesso que às vezes eu acelero o controle pra chegar ao fim. Eu preciso chegar ao fim. Só que essa urgência vira outra. E outra. E quando eu vi, eu não produzi nada, não fiz nada do que preciso ou que esperam de mim, e isso vira um novelo dentro de mim, e eu sento e choro no chuveiro, porque me sinto incapaz e inútil de todas as formas.

Vem enxaqueca em seguida. Muitas vezes acabo tendo uma crise tão forte de enxaqueca que eu vomito qualquer coisa que tiver no estômago. É recorrente isso. As mãos tremem, o corpo entra em emergência. 

Isso, para mim, é viver com ansiedade. 

Mas você precisa mostrar o dedo do meio pra sua ansiedade, honey.

Voltando a falar de trabalho manuais: sou um lixo nisso, blablablá, taoquei. Porém, comecei a ver uns bordados tão lindos na Internet. E decidi fazer um curso que oferecemos lá no meu escritório, a Casa Nuvem. Achei que não seria capaz. Que não daria conta de ir, ponto a ponto, construindo algo. No bordado você não pula etapas. Você não faz as coisas acelerarem. Você tem que ter paciência e perseverança.

Meu primeiro bordado saiu em poucas horas. Não fiquei madrugada a dentro fazendo. A hora que o namorado chamou, deixei o bastidor de lado e fui dormir. De manhã, sentei novamente. 

E quando acabei, mesmo com os defeitos dos galhos, me deu uma sensação de paz. 

Em primeiro lugar, viver com ansiedade é buscar forma de acabar com ela. Mas ela não acaba. Com ela você apenas lida. Medita. Faz bordado. Tricô. Toma um banho quente. Se alonga.

Essa desconstrução é também não somente de não alimentá-la, mas também de saber que tá tudo bem você ter ansiedade. Ninguém tem nada com isso. Faça terapia, tome um copão de água gelada. Respira fundo.

Respira fundo, Lyra. Faz uns bordados. Vai ficar tudo bem. 

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