RESENHA: 'A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL', TERROR MARAVILHOSO DISPONÍVEL NA NETFLIX

outubro 22, 2018


Nesses tempos difíceis de eleição, onde bate uma desesperança e a cabeça fica cheia, há tempos eu caçava uma série bacana pra distrair. E antes de mais nada, preciso fazer um disclaimer: eu sou uma pessoa que raramente ou nunca assiste filmes de terror. Explico.

Assim como a personagem Nell (ou não, quem viu a série vai entender), eu sofro de paralisia do sono, e por vezes tenho pesadelos meio reais que acabam com meu sono. Então prefiro não assistir coisas que me deixem assustada ou baqueada antes de dormir.

Mas não deu pra passar incólume a "A Maldição da Residência Hill". A Netflix parece finalmente ter acertado em um título de terror e... drama. Vamos à sinopse primeiro.

"A Maldição da Residência Hill" conta a história da família Crane, pai, mãe, três filhas e dois filhos que vão morar numa mansão gigantesca durante apenas um verão, com o objetivo de reformá-la por inteiro para vendê-la. E a mansão é um clássico de qualquer título de terror: empoeirada, com estátuas assustadoras, com ex-moradores bizarros,, caseiros esquisitíssimos que não ficam após anoitecer... Por alguns segundos bate aquela dúvida se realmente vai funcionar mais uma história de casa assombrada. Mas rapidinho a sensação se vai e dá origem à muita tensão, drama e cenas interessantes.


O mais legal é que a série se passa de certa forma em dois tempos: o passado da família na famigerada casa, e como é possível que eventos traumáticos desse mesmo passado tenham determinado totalmente no futuro. E é o futuro que interessa, mas é o passado que o explica.

A série se inicia num clássico clichê do terror, mas nele não fica, já que, apesar da gama de monstros e fantasmas, além de histórias macabras, cercearem a casa, é no drama de uma família problemática que se fia o suspense todo. E os Crane são problemáticos a beça depois daquele verão na Mansão Hill. (Evite ler daqui para baixo se não gostar de spoilers). 

A tragédia em si, contada apenas aos pedaços em cada episódio, é o pano de fundo e a explicação do futuro sombrio. Essa tragédia é nada mais nada menos que o suicídio da mãe, Olívia Crane, quando as crianças eram pequenas. Depois disso, os filhos vão morar com uma tia e o pai se afasta completamente. Anos se passam. O filho mais velho, apesar de não acreditar em fantasmas e alegar nunca tê-los visto, Steve, ganha a vida como escritor de best-sellers sobre terror (tendo sido revelado como escritor por um sobre... sua infância na casa Hill). Theodore é uma psicóloga problemática que não toca nas pessoas, já que possui o estranho dom de clarividência. Nell, a caçula, perde o marido para um aneurisma e entra em depressão, assim como seu irmão gêmeo Luke, um viciado em heroína. A irmã Shirley vira dona de uma funerária e parece ser a única que não possui tantos traumas.

Uma outra tragédia, misteriosa, une os irmãos, e entre brigas, discussões, e dramas familiares, os sustos. E na verdade, os fantasmas e aparições, as cenas lentas onde você vê as costas do protagonista e sabe que alguma coisa está vindo, são apenas uma espécie de condutor do drama que realmente acontece na história. São os fantasmas vivos do Crane que fazem com que suas vidas estejam perdidas, para além da casa assombrada. As assombrações em si são apenas um fio condutor de cenas tensas e diálogos onde a discussão sobre culpa, raiva e medo entre uma família é que assusta o espectador.

Para além disso, a série possui uma direção impecável, além da fotografia sombria já esperada e não fica fazendo uso dos chamados jump scares - ou aqueles sustos aleatórios que fazem a gente pular da cadeira e ter um mini-infarto. A série não precisa disso para ser assustadora ao mesmo tempo que densa e inteligente.


Não é incomum que produções chamadas de horror ou terror usem elementos dessa arte para falar de tabus ou mesmo de situações sociais incômodas. "The Babadook", filme australiano de 2014, usa um monstro de cartola para falar sobre uma mãe que não ama um filho, sobre o tabu da maternidade que não é romantizada e na verdade é vista como algo grotesco por aquela figura materna, a ponto de a protagonista não saber mais se ela é ou não o monstro de cartola. Séries e filmes assim dão todo um fôlego ao cenário, já um pouco saturado de produções ruins e óbvias.

No final, a maldição real da série se mistura às escolhas das pessoas, e do enfrentamento das consequências das mesmas. A casa assombrada é só a roupagem do drama, o que torna tudo bem mais legal.

You Might Also Like

0 comentários

Popular Posts

Facebook

Pinterest